“(…) Eram livros misteriosos, cujos desfiladeiros não apenas eram diferentes, mas muitas vezes contrários a tudo que eu havia conhecido até então. Não era necessário demonstrar os fatos: bastava o autor haver escrito para que fossem verdade, sem outra prova além do poder de seu talento e da autoridade de sua voz. Eram de novo Sherazade, mas não em seu mundo milenar onde tudo era possível, e sim em outro mundo irreparável no qual tudo já tinha se perdido.
Ao terminar a leitura de A Metamorfose ficaram em mim os anseios irresistíveis de viver naquele paraíso alheio. O novo dia me surpreendeu na máquina viajante que o mesmo Domingo Manuel Vega me emprestava, para tentar alguma coisa que fosse parecida ao pobre burocrata de Kafka convertido num besouro enorme. Nos dias seguintes não fui à universidade com medo de que o feitiço se rompesse (…)”
Trecho de Viver para Contar, de Gabriel García Márquez, página 241
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Por acaso, iniciei a leitura do capítulo 5 da autobiografia de Gabriel García Márquez, onde está o trecho acima, na sala de cinema, antes de começar a exibição do Meia-noite em Paris, do Woody Allen. Sim, há muitas cenas lindas de Paris. Não, não me pergunte o que esse filme significa dentro das obras de Woody Allen (gosto mais da safra europeia de seus filmes, desde Match Point). O ponto alto do filme para mim é a fantasia da volta no tempo, a sensação de não se encaixar com o contexto atual e o desejo de ter nascido em ou vivido outra época – no caso de Gil, o protagonista vivido por Owen Wilson, é a Paris dos anos 20 in the rain. Essa melhor parte o trailer abaixo não mostra:
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Nos comentários da psicanalista Diana Corso, após a seção, a nostalgia de um tempo ou de algo que não vivemos foi um dos principais temas. Gostamos da fantasia que temos desse tempo, e não do que realmente aconteceu. Ela exemplificou com aquele pai que se sente inseguro, acha que falha e pensa que os pais do passado sabiam educar, ”porque, no meu tempo, não era assim”, dizem. Mas, nas famílias daquele tempo, talvez o pai não demonstrasse afeto, a mãe não pudesse abrir a boca para discordar do pai etc.
Outro ponto que o Ticiano comentou foi o filme Retratos de uma Obsessão (One Hour Photo), com Robin Williams, em que ele é obcecado por uma família aparentemente perfeita em fotos. Sem os extremos do personagem, é sentimento real em relação aos álbuns virtuais (quem posta no Facebook as fotos de momentos em que estava no fundo do poço?). A grama do vizinho é mais verde, mas não é por acaso.
Confesso que invejei o paraíso de Gil, com encontros com Heminghway, Picasso, Modigliani, Dalí e outros em Paris (aliás, até demais!), mas, como espectadora, ficaria frustada se ele ficasse preso àquele tempo. Foi um alívio que ele saiu e pode encontrar no presente (ou numa fantasia de futuro) os detalhes do passado que gosta. Ou é apenas a fantasia que eu gosto de imaginar como final.




Oi, Mel. Eu gostei de tudo no filme, ainda estou digerindo! Bjs
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