Descobrindo o NHS

Recebi um vídeo de alguns parentes sobre o NHS, o “SUS britânico”. Abaixo, uma das cenas mais impressionantes:

Parece maravilhoso, não? Pois é, parece maravilhoso demais: acho que devemos ser cautelosos. Não digo que é mentira, mas antes de acreditar que tudo funciona na Europa, devemos pensar um pouco no contexto.

Talvez você tenha reconhecido a origem desse vídeo – é um trecho do documentário Sicko, do Michael Moore (que ainda não assisti). O filme foi feito em 2007 – enquanto George W. Bush, um dos alvos preferidos do diretor, estava no poder e antes da recessão na Europa. Cai muito bem esse médico rico em Londres, trabalhando para o sistema público, para contrastar com a situação nos Estados Unidos – embora eu acredite que médicos sejam bem pagos por aqui, me parece mais uma exceção do que uma regra (se você pode esclarecer isso, por favor deixe um comentário).

Além disso, tem uma entrevista ótima no filme com um ex-integrante do Parlamento, falando sobre a história do NHS. E não se fala em problemas. Talvez porque esse MP era do mesmo partido do primeiro-ministro da época.

* * *

Há prós e contras. O NHS é superior ao nosso SUS e é melhor do que parece ocorrer nos Estados Unidos (para uma recente noção disso, recomendo a reportagem Poor America, que a BBC passou aqui há algumas semanas – se não rolar no link, deve ter no YouTube). Mas não é perfeito. Tenho a impressão que planos de saúde particulares no Brasil ainda podem ser melhores que o NHS (e, sim, sei que um você paga muito e o outro é de “graça”, ou melhor, é pago com os nossos impostos…). Mas aqui a opção particular é cara, e empresas não fazem planos para seus funcionários. Espera-se que eles usem o sistema público. Ou seja, é o que há.

É fácil pensar que na Europa tudo funciona, e escrevo esse texto justamente para quem pensa isso. O sistema tem enfrentado muitos cortes. Casos de falhas que resultaram em morte aparecem com frequência nos jornais (tipo não pedir um exame que detectasse uma doença a tempo de ser curada). Mulheres são orientadas a fazer o exame Papanicolau a cada três anos (espero ter entendido isso erradoUPDATE: confirmado aqui). Uma amiga da minha sogra não conseguiu fazer um exame pelo NHS e procurou um médico particular. O teste realmente acusou o que ela suspeitava, e voltou ao sistema público para receber o tratamento. O médico a recusou por ter procurado outro profissional. Tenho a impressão de ser um tipo de sistema menos preocupado com prevenção. Não fazer exames é uma forma de economizar dinheiro.

Ontem foi lançado um documento para que funcionários tenham mais compaixão pelos doentes mais velhos nos hospitais – entrevistados relataram longo tempo sem comer ou beber e atendimento muito frio. Dizem que há muita burocracia quando o caso é mais sério. E o atendimento odontológico gratuito é limitado.

Um médico brasileiro, ao me citar bons exemplos de sistemas de saúde pelo mundo, citou países da Europa e um inclusive da América Latina, mas, sobre a Inglaterra, disse: “em parte” (lamento que a entrevista tinha um foco muito diferente, não pude pedir detalhes).

* * *

Minha primeira experiência com o SUS britânico, na semana passada, foi positiva – nada muito sério, só precisava identificar e ter uma prescrição para um shampoo especial. Na minha temporada 2010/2011, eu não era cadastrada, mas cheguei a ir em um walk-in center: basicamente, um postão que se pode ir sem consulta, nem cadastro com o NHS, em casos não tão graves para se ir a hospitais.

Quando retornei ao Reino Unido, ao escolher a clínica ao qual me cadastrei, procurei no site do SUS britânico uma que tivesse boas recomendações e que se conseguisse consultar em poucos dias (quando liguei, só tinha para daqui a quatro dias úteis – melhor do que os planos de saúde que tive no Brasil). Acostumada a escutar reclamações, tive uma boa impressão. A médica foi bem atenciosa.

Por ser imigrante, ainda não tenho acesso a absolutamente todos os serviços. Terei apenas após um ano de residência na Inglaterra. Então, o jeito é se cuidar.

O que acho realmente fantástico são os medicamentos subsidiados: nenhum remédio na Inglaterra custa mais de £ 7.40 (menos de R$ 25), de forma universal; na Escócia, ouvi dizer que é 100% subsidiado (a confirmar). Devido a quantidade de estrangeiros no país, o sistema ainda oferece intérpretes para consultas. Isso tudo é muito bom, mas não é infalível e está cada vez mais ameaçado pelos cortes devido a essa recessão que não finda.

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2 respostas para Descobrindo o NHS

  1. Helena disse:

    Oi Melissa! Legal saber como funciona por aí. Já tinha uma noção uma vez que li num post de uma menina que morou na França e na Inglaterra e decidiu retornar ao Brasil. Se quiser dar uma olhada, o link é esse: http://conexaorioparis.blogspot.com/2011/04/nhs.html

    Beijos!

  2. Melissa Becker disse:

    Ela confirma o que eu temia: preventivo de HPV a cada tres anos! E TUDO o que ela escreveu sobre o atendimento e’ o que espero aqui: que me digam que nao e’ nada, para esperar passar etc. Quando usei o walk-in, estava com uma gripe tao forte que parecia outra coisa (nunca senti algo parecido antes, fiquei realmente preocupada), mas me receitaram paracetamol e ‘agua.

    Essa experiencia mais recente foi surpreendentemente positiva. A medica era inglesa, foi atenciosa e simpatica e me deu todo o tempo necessario (love you, Dr Brown!). Ela tambem usou o Google para descobrir mais informacoes sobre o shampoo especial que eu usava no Brasil – mas assim que identificamos o principio ativo, ela checou em livros o medicamento correspondente na Inglaterra. E eu achava que, justamente porque queria so’ um shampoo (afinal, nao vou morrer por causa disso), nao iria ser bem atendida.

    Ai’ vi meus tios circulando esse video. So’ que no pais em que o medico tem casa de 1 milhao, as mulheres tem que fazer preventivo de HPV a cada tres anos? Perai’, ne’? E’ um alivio nao ter que pagar plano de saude aqui, mas ha’ riscos.

    Beijos, Helena! Obrigada pelo link! :)

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